Dei um depoimento a alguns anos atrás para um Blog chamado a Endometriose e Eu de Caroline Salazar sobre a minha cirurgia para tratar da endometriose severa que eu tinha...
Resolvi postar o depoimento aqui no Blog, porque foi a Endometriose que me levou a uma gravidez gemelar...
Enjoy!
“Meu nome é Sabrina Petermann, moro em Brusque, em Santa Catarina, tenho 30 anos. Em 2001, aos 20 anos de idade, eu ainda estava na faculdade quando comecei a sentir fortes dores de estômago. Na época, graças à ajuda de uma tia, eu tinha plano de saúde, pois minha família não tinha condições de me proporcionar tal luxo, que é ter um plano de saúde no Brasil. Por conta das dores de estômago, fui a um médico, um gastro, que era extremamente atencioso. Ele fez um exame de apalpar a região do abdômen e perguntava aonde eu sentia dor. Ao tocar na área que corresponde à parte do intestino, reclamei. Foi quando ele perguntou se eu tinha alteração nas fezes no meu período menstrual. Respondi que sim, que tinha prisão de ventre nessa época. Foi aí que o doutor me apresentou uma nova doença, na seguinte frase: “Isso pode ser endometriose, conversa com seu ginecologista e quando quiseres engravidar procure um especialista.” Bom, meu caso com o gastro se revelou em uma gastrite nervosa, e de fato, nas férias, e após terminar a faculdade em 2003, nunca mais tive as tais dores de estômago. Ainda em 2001 começou minha epopeia pela tal endometriose. Até então, meu único problema era não fazer cocô no período menstrual. Na época, eu tinha uma ginecologista, uma mulher, e eu falei para ela o que sentia, o que o gastro havia me falado sobre endometriose. Lembro-me até hoje o descaso como ela tratou o assunto. A doutora não levantou nenhum minuto o rosto da minha ficha, apenas disse para eu comer mais fibras, tomar mais água durante esse período para evacuar melhor. Foi minha última consulta com ela. Daí para frente cada ano era um ginecologista diferente e falava a mesma coisa até que chegou uma fase que algumas coisas mudaram. As minhas fezes se tornaram diarreia durante o período menstrual. Mas como nenhum ginecologista dava atenção ao assunto e o gastro somente havia me dito: “quando quiseres engravidar vais precisar resolver isso”, pensei que resolveria quando quisesse engravidar, pois eu não tinha muita noção sobre o assunto. Nessa época, eu também fiquei sem plano de saúde. E assim passaram-se alguns anos.
Em 2007, eu descobri que tinha leite no peito. Após exames negativos de gravidez, uma ginecologista me disse que poderia ser um adenoma na hipófise. Vou resumir bem isso, mas essa parte aqui é importante porque foi aqui que eu encontrei uma médica que me disse: “vai resolver seu problema de endometriose hoje!”. Sem plano de saúde, fui me consultar numa clínica do Sesi, onde as consultas eram mais baratas. A tal gineco disse que era um adenoma na hipófise e que não precisaria nem fazer exames, pois era só tomar um remédio que passava. Ela pediu as contas da clínica e sumiu. E eu fiquei sem o remédio e sem saber se existia um especialista em outra área que poderia me ajudar. Mesmo assim continuei mais um ano nessa clínica, onde eu conheci a minha endocrinologista. Aliás, ela merece ser citada com nome: é a dra. Camila Colin. Ela tratou e trata do meu adenoma na hipófise até hoje e foi quem me disse: “Sabrina você tem que tratar essa endometriose agora, não somente quando quiser ter filhos, ninguém merece e nem deve sentir dor. E até você querer ser mãe poderá ser tarde demais.” Já que esse adenoma requer tratamento constante e ressonância magnética anual, fui fazer um plano de saúde. A partir daí comecei a procurar um especialista em endometriose em Santa Catarina. Fui ao nosso amigo google e nada. Era tudo bem vago, mas muitos estavam relacionados a clínicas de fertilidade, porém eu não queria ter filho naquele momento. No começo de 2010, uma amiga minha, que ia à sua consulta de rotina com seu ginecologista, disse-me: “Sabrina, não queres tentar ir nele, é em Florianópolis. Já tive problemas com outros médicos e com ele deu certo, não custa tentar.” Ele foi o primeiro ginecologista que me ouviu, que me explicou sobre a endometriose, que me diagnosticou com ela e me deu uma solução: engravidar! Segundo ele, no parto, ele faria uma cesárea e, além do bebê, retiraria o tal foco de endometriose que, segundo o exame de colonoscopia, a minha endo estava localizada no segmento retossigmoide. A outra solução seria colocar DIU (dispositivo intrauterino), o Mirena, para não menstruar. Saí de lá superfeliz por ter sido ouvida, entendida, por alguém ter acreditado em mim, me olhar no olho e não apenas na minha ficha, mas também por ele ter me explicado sobre a doença. O único problema é que eu não gostava da ideia de engravidar naquele momento, mas também não gostava da ideia de colocar o Mirena, já que esse remédio poderia durar até cinco anos no meu corpo. E se eu resolvesse ser mãe, como poderia retirá-lo antes deste período? Enfim, não sei por que, mas achava que era necessária outra solução (sexto sentido será?). Então, continuei menstruando, sentindo dores muitos fortes e passando muito mal no período menstrual. No fim de 2010, fez três anos que eu ficava de cama no primeiro dia da menstruação. Alguns meses depois, comecei a menstruar também pelo ânus. Saiam pedaços de sangue solidificados no meu cocô.
Com isso fui a um especialista em fertilidade, em Blumenau, a 30 minutos da minha cidade. Ele tinha tratado algumas pessoas, tipo a conhecida da conhecida de uma amiga da amiga. Ela tinha endometriose e queria engravidar. Esse médico fazia laparoscopia, retirava os focos. A tal fulana operou com ele e em um dia já tinha ido pra casa. Marquei a consulta e fui, mas para isso tive que mentir para a secretária dele que eu queria engravidar e não estava conseguindo. A primeira pergunta que ela fez ao telefone foi: “tais tentando engravidar e não consegues?” E eu respondi: “não!” E ela me disse: “mas o doutor só atende casos de infertilidade” E eu: “mas eu tenho endometriose e soube que ele tratou de mulheres que tinham.” E a secretária: “tais tentando engravidar ou não tais?” Então eu disse: “tô, tô tentando e não consigo! O tal médico era superdisputado e eu tive que esperar três meses para ser atendida. Chegando lá, quando ele ia explicar como funciona o seu processo para engravidar, interrompi e disse: “doutor eu não quero engravidar, pelo menos não agora.” Ele deve ter pensado naquele segundo: “O que essa louca está fazendo em uma clínica de fertilidade então?” É que eu tenho endometriose e me falaram que o senhor opera. E contei toda minha história, meus sintomas e a ideia do gineco anterior, de que precisava engravidar para retirar a endometriose. Posso dizer que esse médico mudou minha vida. Simplesmente disse: “Sabrina, você não fez ressonância da pelve para afirmar 100% de certeza o que vou lhe falar agora, mas, dentro da minha experiência, pelos seus sintomas e tudo que descreveu, a sua endometriose está num grau muito avançado. Dentro da classificação médica, ela seria grau IV (nota da editora:a endometriose se classifica em graus de I a IV, sendo este último o estágio mais severo da doença. Grau I: mínima, II: leve, III: moderada e IV: grave, mas sem sempre uma portadora em grau grave tem mais dor do que tem a leve ou a moderada). Aqui, na clínica, opero e trato endometriose, mas nos graus I e II, os mais leves, pois são os que as mulheres descobrem quando tentam engravidar e não conseguem. Dentro disso, peço que faça uma ressonância da pelve e indico o dr. Lúcio para tratar o seu caso. Ele atende numa cidade bem menor do que a tua. Vais até achar estranho eu encaminhá-la a um centro menor, dizendo que o especialista está lá, mas é verdade. Vou pedir uma RM, só para poupar seu tempo, pois o Lúcio vai precisar. Mas, antes, quero ver esse exame primeiro.” Fiz a tal ressonância, e tanto eu quanto qualquer leigo poderia ver que, meus focos de endometriose estavam estrangulando parte do meu intestino e o ovário esquerdo tinha quatro focos bem visíveis. O relatório da ressonância classificava como endometriose grau IV. Deixei o tal exame na clínica do dr. Fernando, em Blumenau, pois ele me ligaria falando sobre o exame. Marquei a consulta o tal dr. Lúcio. Consegui marcar já para a semana seguinte, então, pensei: “Meu Deus, ele deve ter comprado a máquina da ressonância e não tem pacientes, só pode.” O dr. Fernando ligou e disse que o exame confirmava o que ele suspeitava, e que eu não tinha tempo a perder. Ele foi bem enfático ao telefone, ao insistir de que eu precisava do dr. Lúcio. Ainda não entendia bem o que ele queria dizer. Chegou o dia da consulta e, pela primeira vez na minha vida, fui ao gineco acompanhada de meu marido. Pedi a ele para entrar junto comigo no consultório. A ideia era ter mais uma pessoa observando o tal médico, pois ainda não acreditava de que teria a solução para o meu problema, numa cidade de 60 mil habitantes.
A clínica estava cheia e ele tinha três secretárias. Lá ouvi que não tinha consulta com ele pra daqui a alguns meses. Então, entendi que eu fui atendida em caráter de urgência, por ter sido encaminhada por outro médico. A consulta resolveu a minha vida! Eu e meu marido gostamos muito do médico. Segundo o doutor, a cirurgia teria que ser feita logo, antes do intestino fechar e eu ser levada ao pronto-socorro em caráter de urgência, com o intestino estourado, e cocô por todo o organismo tendo, e teria grandes chances de perder todos os órgãos reprodutores ou até mesmo de falecer. Logo de cara ele me falou da cirurgia, da equipe multidisciplinar que ele tem e fiquei supercontente. Ele me disse: “Sabrina é uma cirurgia de grande porte, você consegue entender isso”? E eu: “sim, sim.” Bom, mas só fui entender, depois de ter passado por ela. Eu estava tão feliz, por, finalmente, depois de 10 anos de procura, ter encontrado o médico que ajudaria de verdade! Como eu não conhecia nenhuma paciente dele fui a caça de informações. E, então, minha sogra se lembrou de uma amiga dela que tem uma filha que é médica na mesma cidade do dr. Lúcio, e mandou um e-mail à ela explicando por um pouco a situação, e pedindo informações sobre o médico. A resposta foi as melhores referências sobre ele. Foi uma ótima surpresa. Mais tranquila, marquei minha cirurgia para agosto, pois estávamos em maio. Eu viajaria em junho e o médico em julho. Sobrou o mês de agosto. No dia 15 de agosto de 2011, uma segunda-feira, às 9h da manhã, sai de Brusque com uma comitiva: minha mãe, minha sogra e meu marido. Viajamos três horas de carro para me internar, pois no dia seguinte seria a minha cirurgia. Às 6h da manhã, do dia 16, fui encaminhada para o centro cirúrgico, do qual eu somente voltei às 21h. Foram 10 horas de cirurgia, seis médicos e seis enfermeiras envolvidos. Lembro-me de ter entrado no centro cirúrgico, das enfermeiras terem se apresentado e do dr. Lúcio conversando comigo. Depois, eu me lembro de chegar ao quarto e ver a expressão estranha no rosto dos familiares: eu tinha um tubo que entrava pelo nariz e ia até o estomago (sonda gastro), uma sonda urinária (que permaneceu em mim por duas semanas), um dreno no corte do abdômen para drenar os líquidos, que se formam pela intervenção e também já estava tudo preparado caso precisasse de uma bolsa de colostomia (nota da editora: bolsa afixada no abdômen, por meio de uma incisão, com o objetivo de drenar as fezes, quando o intestino grosso, reto ou ânus não funciona normalmente) E soros, isso mesmo, no plural. Tinha soros nos dois braços. Eu estava com uma cor horrível, pois perdi muito sangue durante a cirurgia. Ela se resumiu em 20 cm de intestino retirados, parte do ovário esquerdo retirada e um implante do ureter (nota da editora: são canais que levam a urina dos rins para a bexiga). Durante a cirurgia foi descoberto que meu ureter estava tomado por aderências e o urologista foi chamado às pressas. Além de tudo isso fui submetida a uma plástica vaginal. A minha vagina foi completamente refeita internamente, tamanha a quantidade de aderências que tinha ali. Fiquei uma semana internada. No hospital, tive que reaprender a levantar da cama, a andar, a respirar. Fiz fisioterapia para tudo isso. Reaprendi a fazer cocô e xixi, já que parte da minha bexiga foi retirada também. Ouvi das enfermeiras que fiz uma cirurgia sete em uma, e também a pergunta: “Como você deixou a doença chegar nesse estágio?” Fui extremamente bem atendida por toda a equipe do hospital, e principalmente, pelo meu médico que me visitava todos os dias, inclusive, no fim de semana. Os outros médicos também me visitaram (eram duas visitas de cada um dos especialistas), e me explicaram o que tinham feito como estava e como ficou. Deixo bem claro que fui para a cirurgia ciente e também esperando que eles tirassem meu útero, meu ovário esquerdo por completo, trompas etc. No fim tudo ficou. Ainda bem! Mas não sabíamos da necessidade de retirar parte da bexiga, o ureter e muito menos da plástica vaginal. Isso não aparecia na RM. Segundo minha mãe, ao sair do centro cirúrgico, o dr. Lúcio disse: “Nunca vi uma doença causar tanto estrago!”
Voltei para casa oito dias depois, fraca, com uma sonda urinária e começando a fazer cocô novamente. No começo, eu não podia ficar sozinha. Meus pais se revezaram nos cuidados. Minha mãe era quem me dava banho, sentada comigo debaixo do chuveiro. No primeiro mês voltei todas as semanas ao médico, e mesmo assim, ele telefonava perguntando como estava. No segundo mês retirei o cateter ureteral (nota da editora: tubo de plástico, tipo um caninho, que ajuda a drenar a urina). Para isso, fiquei internada algumas horas. Mais uma vez no centro cirúrgico e três médicos envolvidos. Deu tudo certo. A partir daí meus retornos ao médico passaram a serem cada 15 dias, mas dr. Lúcio me ligava toda semana. Dois meses após a cirurgia, menstruei pela primeira vez, e foi completamente diferente de todas as outras vezes. Vinha sangue, bem vermelhinho, como se eu tivesse cortado a pele, um vermelho bem vivo. Falei para o médico completamente feliz e sorridente. E ele me respondeu: “É assim que deve ser.” Então, vocês devem querer saber como era o meu sangue antes: era escuro, quase preto e vinha em pedaços. Ficava menstruada de oito a 10 dias, sendo que os três primeiros vinha uma borra preta até realmente começar a menstruar de verdade, com sangue coagulado. Em novembro de 2011 comecei o tratamento com Zoladex, que ganhei no SUS. Meu médico preencheu todos os papéis, e em um mês, eu retirei a primeira injeção. Tomei a última no dia 31 de dezembro de 2011. Hoje ainda estou sob efeito do Zoladex, ou seja, menopausa induzida, sentindo muitos calorões. Minha saga ainda não chegou ao fim, devo fazer mais um exame em agora em fevereiro ou março para ver se o implante do ureter está funcionando. Também voltarei ao médico especialista em fertilidade, para ele analisar como ficou a parte reprodutiva nessa história toda.
Fiz todos, exatamente todos esses processos pelo meu plano de saúde, a UNIMED. Mas sei que tudo correi bem graças a atenção do dr. Lúcio, que fez toda parte burocrática. Ele até ligava para o convênio para aprovar a minha cirurgia. Também contei com o apoio e atenção dele em preencher os papéis do SUS para ganhar o Zoladex, pois não tenho condições de pagar quase 2 mil reais por um remédio. Eu convivi 10 anos com a doença, e com o passar do tempo, ela evoluiu dentro de mim e fez muitos estragos. Ainda não sei se poderei ser mãe um dia, mas isso não me incomoda muito não. Sim, eu sofri durante essa minha convivência com a doença, mas minha vida seguiu. Não deixei de fazer nada por conta da doença. Cursei faculdade, consegui meu primeiro emprego, namorei, me formei, arranjei muitos outros empregos, casei, viajei em lua de mel, abri meu próprio negócio, viajei mais algumas vezes. Continuei seguindo a minha vida, apesar de sentir dor e sofrer 10 dias todos os meses. Ao final dessa longa história, gostaria de dar o nome completo e a cidade do meu anjo: dr. Lúcio Flavo Dalri, de Rio do Sul, em Santa Catarina. Estou há muito tempo para escrever e compartilhar que existe esse médico aqui, escondidinho no Alto Vale catarinense, em uma cidade de 60 mil habitantes, que tem essa equipe multidisciplinar maravilhosa. E o melhor é que faz tudo isso pela UNIMED, sem cobrar 1 real a mais. Após tudo isso, não posso mais menstruar para a doença não voltar. Agora, sim, deverei usar o Mirena. E se um dia eu tiver uma filha, ou se eu posso dar um conselho para alguém é: não menstrue! Use implante, use qualquer outra coisa, mas não menstrue! Só menstrue na fase que quiser engravidar! Espero que minha história seja um alerta para muitas mulheres. Beijos com carinho! Sabrina."
Link para a página do BLOG com este relato: http://aendometrioseeeu.blogspot.com.br/2012/02/historia-da-leitora-sabrina-petermann-e.html

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